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Era bom.
Eram tempos diferentes.
Eram de longe, os preferidos de quem os viveu, assim como de quem morreu nele.
Quem viveu, viveu bem. Quem morreu, morreu em paz.
Eu vivi. Vivi bem, e espero morrer em paz.
Mas quando vivi, envolvi-me com quem me era mais querido. Isso bastou-me para saber, que ter a certeza, é a maior dúvida de sempre.
Como se tem a certeza do que se sente, quando a própria frase, é uma pergunta?
Logo aqui, há dúvida.
Eu consegui o impensável. O impossível, de não ter dúvida alguma que por mais fora do normal tivesse sido, fui esclarecido.
Foste tu, no dia 21 de Agosto de 1884...
Estava escuro, era de noite. Num quarto imenso de uma casa na costa vicentina, o silêncio era rei. Rulava sobre a escuridão, em conjunto com o arrepio na espinha, pelo tocar no chão frio de tijoleira.
Da penumbra neste quarto de escuridão impetuosa, relevos de um corpo que jazia na cama larga de lençóis claros, se mostravam.
A presença humana, que se revelava ao luz da lua, vinda da janela, pertencia a Rose.
Como uma sombra segue o corpo a que pertence, eu segui a sombra do corpo que jazia indiferente na sua cama. Infiltrei-me no seu quarto, sem atrair atenções indesejadas.
Reparei que respirava lentamente. Só queria ouvir aquele respirar. O som do próximo movimento que poderia fazer. O som do osso forte e novo na rótula da cartilagem, juntos com a música da flexão dos diversos muscúlos envolvidos no seu movimento.
Bastava-me saber que estava viva. Mas era demasiado pesado, o fardo de não ter a certeza.
Quis remover o fio de cabelo da sua face que, por mais atraente que lhe fizesse parecer, teria que o por no seu lugar. Aproximei-me, mas apercebi-me que ela deu conta da minha presença.
Rose sentiu uma brisa fresca, vinda de trás, arrastando tudo o que era leve, pelas suas costas de mulher incrédula. Tentei refugiar-me, não consegui. Afastei-me o mais rápido possível.
Ligou o candeeiro da sua mesa de cabeceira de 3 pernas, torneadas com fios de ouro, e com os seus olhos ansiosos de encontrar algo fora do normal pelo seu quarto, Rose depara-se comigo.
De mulher incrédula que era, acreditou. Por mais inóspito que podia parecer, eu estava lá, perante a sua marcante presença.
Majestosa formada de pleno esplendor, levantou-se. Os seus olhos não saiam da minha trajectória, assim como os meus cruzavam os seus.
Tentei fingir, pensar numa hipótese que justificasse a minha presença ali, balbuciando algo baixinho sem sentido.
Mas Rose não quis saber.
Tinha outros planos, do que somente ouvir um rapaz fora do normal.
Eu quis lhe dizer a verdade. Quis lhe dizer que estava ali para ter a certeza, que esta estaria em segurança, e por fim, desejar-lhe boa noite.
No meio dos meus pensamentos mais profundos, Rose não esperou por uma desculpa esfarrapada, simplesmente limitou-se a executar, aquilo para que foi impulsionada a fazer.
Saltou na minha direcção, sem qualquer respeito pela gravidade, caindo nos meus braços suavemente, como uma pena.
Olhou-me nos olhos, fechou-os e sorriu, aninhando-se como uma cria recém-nascida, entre dois pilares que a sustentariam para sempre se assim ela o desejasse.
Retribuí o olhar carinhoso cuidadosamente; esperei pelo seu sorriso; com os meus lábios juntos à sua orelhinha de perfeitas curvas, sussurei:
-"Durma bem, minha querida."
Levei-a a beira da sua cama larga de lençóis claros. Deitei-a ligeiramente a meio do colchão de penas.
Deitei-me ao lado da imagem surreal que assistia. Observei todo o canto da sua face, esperando pelo raiar do sol, e ver a sua cara de pura felicidade de estar segura mais uma vez. Estar viva. Sentir-se bem.
Foi o momento mais real na vida de alguém que nunca acreditou.
Deste-me a certeza naquela noite.
Que o impossivel é possivel. E o improvável, é provável.
Dorme bem, Rose.
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Porque agora, acredito.
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