terça-feira, 19 de julho de 2011

Abrindo curiosidades

DjS:
--Por favor, para uma melhor interpretação do texto, clicar nos play's espalhados pelo texto. Obrigado e boa leitura.--
DjS.

-------------------------------------------------------------------------------------------



Sentado no meu cadeirão de couro, reflectia nas palavras sábias de um grande escritor português, bastante conceituado e galardoado com o respeito dos portugueses, pela sua obra fascinante "Os Maias", Eça de Queiroz. Pela 11ª vez na minha vida, torcia os cantos das páginas, lendo cada palavra insaciavelmente, ansioso de chegar à página seguinte.
Inspiro de necessidade pelo oxigénio circundante, e expiro absorvendo tudo o que lia.
Páro de ler, meto o dedo indicador na página quase devorada, e olho lá para fora. Pelos quadrados, da caixilharia da janela, mantinha uma linha invisível, para o prado verdejante de 4 m2, situado ao lado da minha velha casa.
O meu cadeirão abraçava-me totalmente, enquanto viajava pela minha mente jovem, encurralada num corpo gasto e envelhecido.
Do prado, saltei para um turbilhão de visões. "Flashback's" que me passavam à frente, sem controlo nenhum, sobre o tempo e espaço. O meu corpo descansou, quando a minha mente parou na tua imagem.
Fechei os olhos, contemplando a tua face, de forma inigualável. Os teus olhos amendoados, pretos como a sombra mais escura. Quando o teu corpo reluzia luz, e os teus olhos eram atingidos com raios solares, emanados pelo nosso grandioso Sol, fixavas os teus nos meus, então, aí, eu entrava numa imensidão de paz.
Um fundo escuro, tranquilo e manso, resplendia nesses olhos profundos de águas com rédea solta.
As tuas sobrancelhas delineadas, sem qualquer indícios de controlo humano. Traços finos e graciosos, que te davam, a tua forma mais carinhosa de olhar para mim. Adorava quando me dizias: "Amor, olha para mim... (^^.)".
Eu delirava, quando via a tua face, voltada para mim, a fisgar-me como se fosses aquela rapariga da esplanada. Que faz por tudo para convencer o rapaz da mesa, lá no fundo, que está realmente interessada nele. Que faria de tudo para conhecê-lo. Que concordaria, com a revista de modelos novos no mercado, que dizia: "Nova revelação no mundo dos modelos masculinos."
Que cruza uma vez, a perna por cima da outra, e volta a cruzar com a outra perna, para mostrar os seus dotes femininos, enquanto o rapaz se deliciava com as suas formas perfeitas.
O inevitável iria acontecer, se ela continuasse assim.
Lembro-me bem desta tarde contigo.
Os teus cabelos, castanhos escurecidos, lavados com uma essência francesa da época. Cheiro que me forçava a bradar aos céus por mais, enquanto, me admirava com o brilho e o toque sedoso que forneciam à pele em volta das pontas dos meus dedos curiosos.
Sabia ler cada fio de cabelo teu. Cada um contava uma história nossa, em volta de gargalhadas e choro. Discussões e conversas sem nexo. Não havia melhor que os teus cabelos para me lembrar de tudo o que passámos juntos. Falavam entre as rugas dos meus dedos, que experimentavam a elasticidade e firmeza de cada um, nascido de cada memória nossa.



Eras como o meu anjo negro, que me trazia à vida, através de cada movimento.
Lábios carnudos, rosados com falta de luz. Mas vermelhos com a intensa ajuda do sol.
Concordava com todos, quando diziam: "Tens sorte, por ter alguém como ela. Para além de ser uma diva, tem a personalidade que te completa, em todos os sentidos.", o que eu me alegrava quando ouvia isto da boca dos mais chegados.

Tinha o teu amor, e tu o meu. Éramos o sagrado início de uma perfeita família.
"Eternos namorados", dizias tu com o teu jeito feliz, realizada, de como alguém, que achasse por pura sorte, uma nota de 500€ na calçada. E eu era feliz a ver-te assim.
Contudo, a vida não foi amiga para mim. A bondade dela devia estar a descansar. Pois deu-me tanto. Deu-me o que tinha e o que não tinha. Ela teria que terminar, fechar a torneira de tanta felicidade. E foi trágico quando deu dada por terminada.
Afastou-me de ti quando nasceu o último da nossa descendência. O teu corpo cedeu ao esforço. E em sofrimento partiste. Oh meu deus, o que me arrependo de não te ter ajudado a suportar a dor. A idade não te era favorável, mas eu também não fui. Renego-me a aceitar um perdão, pois a culpa persegue-me, até ao mais escuro dos meus armários.
Sem conseguir mover os meus olh................

Que foi isto? Dei por mim, de volta ao meu corpo velho. Ouvi um barulho. Senti que devia fazê-lo por pura intuição. Então, forcei a perna esquerda a levantar-se ligeiramente, e o cadeirão resmungou com o movimento contrário.
Descobri o que me acordou. Pus uma cara feliz e aliviada..........

Com olhos no passado, fizeram-me lembrar de como ele resmungava quando tu te sentavas nele.
Forçando cada centímetro quadrado da pele, a habituar-se ao teu formoso corpo.
Esboçei um sorriso. Tornei a olhar para o prado. Fechei os olhos.
Desta vez, acordei no dia de graduação do nosso filho mais novo, Sam. Reparei que Levi, o nosso filho mais velho, não estava comigo. Senti uma enorme tristeza a apoderar-se de mim, e concluí o porquê.
A vida não foi bondosa para com ele. Mas, no entanto, estava a ser totalmente o contrário, para o mais novo. Este, que conseguiu graduar-se 2 anos antes de todos os alunos da mesma idade. No momento de cantar o hino nacional, fui por a minha carcaça orgulhosa, ao seu lado. Chorei com mão ao peito, em busca de uma nuvem com um sorriso teu. Pelo orgulho que terias nele. Por ser teu e meu. Por ser fruto da nossa paixão eterna. Um dos nossos filhos que nunca chegaste a conhecer.
Vejo-me a chegar a nossa casa. Branca como a neve, alta, arquitectura colonial, com relva por cortar no jardim da frente. Arbustos entrelaçados na vedação de madeira, pintada de branca, já gasta. Com o acesso meio inclinado, feito por nós com o feitio de um "S", porque dizias que era melhor assim, dava a sensação de ser o nosso castelo, em cima do monte. E isso agradava-me.
Não consegui ficar com ele muito tempo. Ele era jovem. Coração de leão, como Ricardo, e no entanto, numa noite como todas as outras, esta ficou marcada na minha memória.
Numa das suas festas de amigos, conheceu uma rapariga.
Esta rapariga, com quem ele falava muito e gastava do seu tempo de trabalho, para estar com ela, deixava-o feliz com cada olhar dela. Fazia-me lembrar de nós os dois. Deixei-o viver essa sensação, para ver como realmente era, amar alguém. Mas a vida continuava a dar-me das suas melhores cartas pretas. Como se fosse a paga, por ter sido feliz outrora. Numa noite de altas emoções, a rapariga, com as suas manhas femininas, convenceu o seu pai, a dar-lhe as chaves do seu carro. O famoso Rolls Royce, carro de alta gama. Produzido no coração de Inglaterra, em 1905. Um dos primeiros Rolls Royce a pisar as estradas da nossa cidade de Londres era da sua família. A caminho da nossa casa, a rapariga que vinha com o nosso filho, deu por ela completamente desprotegida, distraindo-se da realidade, assusta-se ao cair em si. Dando origem a uma série de toques e berros, que assustaram a condução da máquina. Rolou sobre si, forçando os corpos frágeis a aguentar uma força imensa, como a montanha russa das feiras. Despenharam-se na valeta.
Pelo que me disseram, foi morte instantânea aos dois. Mais uma vez, não tive coragem de proteger o que era meu. O que era nosso. E por isso, os nossos filhos, já devem estar contigo. Se estiverem, espero bem que esperem por mim. A vida não foi boa para comigo, mais uma vez.

Cansei-me. Envelheci. A pele que dantes era rija e saudável, agora está repleta de sinais e bem flácida.
A força foi-se, e os ossos colaram.

Abri os olhos... E vi-te. Fiquei aliviado. Reparei em ti e aos nossos filhos, Sam e Levi. Agora sim. Estou Feliz.

Agora...

Pergunto-me se, o meu cadeirão resmungou desta vez...

Sem comentários:

Enviar um comentário