Eu era criança.
Eu gostava dessa fase, aliás, quem não gosta.
Era a altura que podíamos sonhar sem limites, dizer aquilo que queríamos sem filtrar a nossa boca.
Saltar, correr, brincar, sem pensar em responsabilidades, ou assuntos por resolver.
Eramos livres. Sem ter que pensar naquilo que nos faz falta. Simplesmente imaginar e concentrar tudo num só assunto; como montar uma peça de lego noutra, como acabar o puzzle, como saber onde pára o meu amigo escondido.
Tempos em que tínhamos quem amamos, sem saber, ao nosso lado, constantemente.
Tempos em que, a imagem de um grupo de pessoas que nos são chegadas, fazia-nos feliz.
A paz reinava nesses tempos.
Com os anos, vamos crescendo e vamos aprendendo.
Todo o dia é um novo capítulo numa história, que tem sempre o fim que nós quisermos que tenha.
Se alguma vez pudesse ser assim. Na vida, tudo o que quisermos tem que ser com muito custo e com alguma lágrima de sangue.
Hoje, escrevo uma pequena introdução sobre infância e adolescência, porque acabei de passar por essas duas fases.
Todos nós temos o conceito de família, uns duma maneira, outros doutra, mas no fundo, família resume-se a ser um grupo de pessoas que gera mais umas quantas, e com o amor de pai-filho, é fundado em cada coração desse grupo um afecto tão grande pela pessoa gerada.
Tenho poucos exemplos disso.
Mas posso dizer que tenho o meu conceito de família normal.
Em criança via sempre tudo o podia como se nunca de mim se tratasse.
Sempre me imaginei na terceira pessoa, e tudo o que via através dos meus olhos, era um autêntico filme criado ou gravado por alguém.
As pessoas me dizem que tenho um olhar perfurante, ou algo de género. Não sou eu, é o meu corpo a registar cada momento, cada fotograma de cada película registada no meu cérebro, por tempo indeterminado.
Tudo o que vejo e sinto, é algo tão insignificante comparado à imensidão de pessoas que vivem, andam e correm todos os dias, para o trabalho, para o local que estipularam, para o encontro, comer, beber, dormir.
Tudo envolve uma quantidade de energia, e esta energia gasta-se sempre que a usamos ao máximo, como é óbvio.
Perdi um ente querido, ao qual tenho o maior respeito possível, porque sem ele não estaria aqui a escrever este texto.
A caminho de Oeiras, no carro dos meus pais, olhava os céus. Reparava nos aviões, nos pássaros, olhava para os carros que se encostavam ao meu, com fúria de chegar primeiro que os outros à entrada para a ponte.
A ânsia de conseguir passar primeiro que o outro carro era tanta, que notei num acidente que sucedera ao lado do meu carro. Não havia tempo, estávamos atrasados.
Meteram a música tão alta no carro, que precisei de aumentar a música que eu estava a ouvir.
Estava numa onda de Coldplay, através do meu telemóvel, com uns head-phones que comprei mesmo para o uso telefónico.
Abstraindo a minha mente, pela razão à qual eu estava naquele carro a caminho de Oeiras, fazia-me ver através de um diafragma de uma lente, tudo o que se passava à minha volta.
Senti o meu pai a estacionar o carro. Tínhamos chegado.
O primeiro pensamento que tive, foi ajeitar o meu fato. Meter os meus óculos escuros estilo anos 70 e conseguir andar. Um pé à frente do outro.
Saí do carro, e andei. Segui a minha família para o sítio indicado, por uma senhora, amiga de infância do meu pai. Pelo caminho deparei-me com umas escadas, e senti logo de imediato o sangue a escorrer para as pernas, porque sabia que iria precisar de alguma força extra para as subir.
Se estaria pronto para ver o que iria ver a seguir, era o meu dilema da altura. Talvez porque o diafragma da lente estava a passar muito realismo para o lado de cá.
Cumprimentei algumas pessoas que eu conheço, as quais me foram apresentadas pelos meus avós nalgumas festas da família. Outras cumprimentei por simplesmente mera educação. Estas escadas foram dar a um pátio.
Pátio este que me levava a uma porta das traseiras do Centro de Oeiras. Assisti no caminho, várias pessoas a chorar, lágrima trás de lágrima sem cessar, outras impávido e serenas.
Havia um misto, um misto de sentimentos, cuja a direcção era para a felicidade pela visita de uma família gerada daquela família que não se via há tanto tempo. Pessoas que eu via quando era pequeno, revias ali, ao lado do resto da minha família. Cumprimentei todos os que me foram possíveis, não queria parecer a pessoa que não sou, uma imagem falsa de um mal criado, não era essa a minha ideia.
Fui andando devagar, e avistei uma carrinha comprida. A carrinha longa de vidros esfumados, ligeiramente velha, com uma pintura cinzenta escura metalizada, com uma parte traseira bastante alongada. Notei logo que seria o transporte para a pessoa que morrera.
Entrei pelas portas a que me levaram, e sem me aperceber, estava no meio de uma roda de pessoas à entrada de uma sala. As minhas primas directas, reparam que tinha chegado, e vieram ter comigo. Disseram-me que o caixão estava aberto, só para não me assustar ou ficar sentido quando o visse.
Eu cumprimentei-as de volta, e respondi-lhes com um OK baixinho, porque a minha voz falhara. Talvez porque passei 2h de caminho sem falar, mais umas 3 horas de puro silêncio. Fiquei contente de as ver, já não estava com elas há mesmo muito tempo.
Forcei a entrada, e reparei num senhor que se chegou à minha frente, nos seus 50-60 anos, meio magrinho, de óculos com hastes muito fininhas e olhos um pouco encovados, olhou para mim e sorriu. Eu sorri de volta, embora eu raramente o vi na minha vida, lembrei-me logo dele, por ser o meu primo Arménio. Senti alguma compaixão por ele. Abracei-o e disse-lhe que estava contente por o ver ali. Ele disse-me em resposta que estava grande e alto, e com razão acrescentou: "Todos nós temos que crescer um dia não é?". Acenei e segui em frente.
Passei por uma massa de gente quase fundida para chegar à minha querida avó.
Ela, que por mais tempo que passasse, sempre me agarrou as bochechas e me disse: "Oi meu netinho!!"
Sempre me derreti nos braços da minha avó. Adorei os seus cozinhados, os doces, os bolos, as refeições, os leites morninhos que ela faz cada vez que chego à noite para fazer-lhe uma visita.
Parou de se esmerar na cozinha quando ficou sem paciência para tal coisa. Ano e ano após ano, sempre a cozinhar por gosto, e por necessidade junta, acaba sempre por cansar.
Vi o meu tio ao lado da minha avó, a minha 2ª tia ao seu lado, e na imagem que gravava, o meu pai saiu disparado da minha retaguarda e enterrou-se ao pé da minha avó.
O meu pai não conseguiu alcançá-la, porque nem dei conta que a minha mãe e a minha irmã já lá estavam a segurar a minha avó e a dar-lhe os sentimentos de cada uma.
Quando chegou a vez do meu pai, o padre separou-nos a todos dizendo que a missa ia começar.
Maçarro do Padre!
De certo que, depois de ver esta cena toda, os meus olhos chocaram com o inevitável.
O meu avô estava dentro do caixão, a dormir.
A razão pela qual não consegui chorar, era porque os meus olhos não paravam de olhar para o peito dele e ainda consegui ver o movimento característico da respiração.
Passaram tantas ideias pela minha cabeça. Parar a missa, chamar a atenção a toda a gente que ele tinha respirado.
Mas ele estava coberto com um pano rendilhado branco, braços cruzados ao meio, e por qualquer razão, não conseguia ver a ponta dos sapatos dele.
De qualquer das maneiras, não havia dúvidas disto, ele tinha morrido no dia anterior, 11/02/2012 à hora de almoço.
O ultimo momento da vida dele, foi a prova de que o amor existe.
Quando finalmente, a missa acabou eu fui ter com a minha avó. Ela agarrou-se a mim a chorar, e me disse baixinho a soluçar: "Hoje perdi o homem que eu amei".
Estavam todos a almoçar, e a minha avó apercebe-se de que o meu avô a chamara. Ela corre para o quarto, e repara nas máquinas e aparelhos especializados para garantir conforto ao seu homem. Olha para o meu avô , e este com um coração bondoso, que tinha, levantou os braços para a minha avó, e ela o abraça envolvendo-o num todo.
Afastando-se dele, reparou que ele estava a revirar os olhos, e exclamou pelo meu tio.
O meu tio correu e aconchegou o meu avô, e com algumas chapadinhas secas na cara, o meu avô voltou a abrir os olhos e perguntou: "Por onde tens andado?" E o meu tio: "Estou aqui, pai, ao lado da mãe."
-"Ainda bem." Fechando os olhos, descansado pela sua mulher não ficar sozinha, partiu.
Tentem-me convencer que amor não existe.
Tentem quebrar o que presenciei naquele dia, a história, o acontecimento, as lembranças e memórias, de convívios e festas, e de sorrisos e lágrimas.
Sinto a explosão da perda.
Garanto que não vou voltar a duvidar que o amor existe.
Porque se existiu à 70 anos atrás, e se eu próprio sou prova disso, então hoje também existe.
Avô, nunca te esqueças que foste a minha inspiração para muito momento meu.
Desde aquela conversa que tivemos no teu escritório, até à nossa despedida, sempre soube que irias causar impacto na tua partida. Foste o homem que conseguiu gerir uma família enorme, e criaste dois filhos fantásticos, dos quais tiveste 3 netas e 1 neto. Orgulho da família que fundaste, acredito que tinhas, mas amor... amor aposto tudo o que tenho, que nunca vi tal amor como o amor que tiveste com a avó.
Adorava ter vivido no teu tempo.
Adorava ter vivido ao teu lado, mais tempo.
Adorava ter vivido o que nunca vivi...
Descansa em paz.