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A maioria de quem passou pela escola, nem 10% sabe, daquilo que nós passámos.
Nós, aqueles que foram julgados, por ser assim ou assado.
Hoje tenho a cabeça bem erguida, e prazer naquilo que vejo no espelho.
De criança, numa escola primária pública, fui sempre confundido
com uma rapariga, por ter um corte de cabelo "à tigela".
Por usar roupas usadas, sem qualquer tipo de cabimento entre
essas peças.
Desde, calças verdes e camisa vermelha até, às calças de
bombazine castanhas escuras, com uma blusa aos quadrados de
1970, entre as cores verde, bege, e bourdot.
Mais tarde, no liceu, fui dado como saco-de-batatas, por ser
gordo e com um penteado de 1980 (evoluimos 10 anos).
As roupas eram usadas, coisa que não mudou durante mais uns
aninhos.
Seriam à volta das calças largas, ténis baratos que se rompiam
ao fim de 4 dias de uso, (ou seja, teria que ter cuidado), e t-
shirts mais normais de sempre. Nunca tive mochilas Eastpak, nem
Bonés FUBU. Nunca tive um GBC, nem muito menos um GBA.
Pegavam em mim, e conseguiam descarregar tudo o que tinham, numa
só pessoa; Impressionante.
Isso parou, depois de o meu pai ter falado com o meu director de turma.
Mais um ou dois anos em cima, e todo o pessoal da escola, achava
que eu era homosexual.
Inclusivé, os da minha turma, que conhecia desde a primária.
Desta vez, eles tinham razão naquilo que diziam, pois eu andava
vestido com roupas de gaja, porque, simplesmente e
insignificativamente, os meus pais não me poderam comprar roupa nova... de rapaz.
Por assim dizer, parece um cenário mau. Acreditem, era bem maior e pior para um rapaz de 13 anos.
Ninguém era meu amigo, à excepção de uma pessoa que realmente
foi aquele ombro amigo que muita gente gostava de ter e não tem.
E por isso, estou-lhe eternamente grato.
Mais um aninho, e tudo mudou. Excepto, uma outra parte.
Esta parte.
Consegui ter roupa de rapaz, usada e nova.
Consegui ter tenis que duravam mais tempo, mas só um par.
Mudei de ambiente, e isso melhorou bastante. As pessoas que me
rodeiavam e me apontavam, tinham desaparecido, e eu tinha
chegado novinho em folha, a uma nova escola.
Pronto para conseguir o respeito que gostaria de ter tido.
Pronto para conseguir me isolar o suficiente para ninguém se
meter comigo.
Foi tudo ao contrário.
Não me safei de uns grandes gozos, por andar sempre de preto.
Por andar acompanhado, por pessoas que ainda hoje admiro, porque
por mais que os outros gozavam connosco, ninguém se virou contra
ninguém, e passámos aquele ano juntos.
Era o rapaz de preto, com pensamentos suicidas, cheio de
complexos. Outro com uma paixão enorme por uma rapariga que só o
magoava. Admirei-o ainda mais, quando ele me disse: "Só quero
estar ao pé dela, só isso me faz bem...e estou-me a cagar po
namorado dela.", era um excelente companheiro para risadas.
Outro que parecia mais uma figura do estrelato de hollywood, do
que outra coisa qualquer. Era humilde ao ponto de se abrir para
comigo e dizer as suas condições, sem preconceito. Admirei-o por
ser forte, no meio da atrocidade.
E por fim, o outro que era a nossa estrela para risadas sem fim.
Viciado em jogos XBOX. Admirei-o por comer uma colher de
manteiga sem pensar duas vezes, e achar aquilo normalissimo.
Fomos gozados, vexados, molhados, e quase a perder as
estribeiras para pregar uns belos murros, bem repuxados atrás.
Ninguém desistiu de lutar contra a maré.
Admiro-os por isso.
No Secundário, já crescido e pêlos na cara, vim a conhecer o que
era a vida de muita gente, que nunca tive antes.
Os meus pais compraram-me roupa nova, a estrear. Ténis de marca,
daqueles que duravam, e foram 3 pares!
Finalmente, consegui comprar uma mochila de marca. Camisas,
óculos de sol, pulseiras, relógios.
Aquilo que desejava antes, tive o prazer de ter algumas coisas
nesta época.
Comecei a re-construir o que me tinha destruido ao longo da
minha infância.
Auto-estima, ainda anda em construção. Prazer no que vejo, em
termos de atitude, gostos, e mentalidade, Re-construídos!
No final, entrei no mundo do trabalho.
Compro as minhas roupas, pelo menos, as que gosto. Compro os
meus sapatos e ténis que me fazem falta.
Os meus perfumes. Os meus óculos de sol. Os meus cintos.
A minha comida. Os meus filmes. O meu telemóvel.
Sofri? Sim, sem dúvida.
Há mais pessoas como eu? Sim, sem dúvida.
Aprendi algo com isto? Sem qualquer sombra de dúvida, porque
toda agente devia passar por isto,
para dar valor as coisas que mais tarde irão ter.
Sou um exemplo vivo de algo que muita gente teme.
Mas, para todos os que lerem isto e se identifiquem com este texto,
eu quero vos dizer uma coisa:
"Por mais que a situação seja má, no momento; mais tarde, iremos ter a recompensa."
Mucho bueno,
Obrigado a lot por terem lido.

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