segunda-feira, 6 de junho de 2011

Fazes ideia?


--> Por favor, cliquem no play para uma melhor interpretação do texto. Muito Obrigado =) Enjoy...




A maioria de quem passou pela escola, nem 10% sabe, daquilo que nós passámos.

Nós, aqueles que foram julgados, por ser assim ou assado.

Hoje tenho a cabeça bem erguida, e prazer naquilo que vejo no espelho.

De criança, numa escola primária pública, fui sempre confundido 

com uma rapariga, por ter um corte de cabelo "à tigela".
Por usar roupas usadas, sem qualquer tipo de cabimento entre 

essas peças.
Desde, calças verdes e camisa vermelha até, às calças de 

bombazine castanhas escuras, com uma blusa aos quadrados de 

1970, entre as cores verde, bege, e bourdot.

Mais tarde, no liceu, fui dado como saco-de-batatas, por ser 

gordo e com um penteado de 1980 (evoluimos 10 anos).
As roupas eram usadas, coisa que não mudou durante mais uns 

aninhos.
Seriam à volta das calças largas, ténis baratos que se rompiam 

ao fim de 4 dias de uso, (ou seja, teria que ter cuidado), e t-

shirts mais normais de sempre. Nunca tive mochilas Eastpak, nem 

Bonés FUBU. Nunca tive um GBC, nem muito menos um GBA. 
Pegavam em mim, e conseguiam descarregar tudo o que tinham, numa 

só pessoa; Impressionante.
Isso parou, depois de o meu pai ter falado com o meu director de turma.

Mais um ou dois anos em cima, e todo o pessoal da escola, achava 

que eu era homosexual.
Inclusivé, os da minha turma, que conhecia desde a primária.
Desta vez, eles tinham razão naquilo que diziam, pois eu andava 

vestido com roupas de gaja, porque, simplesmente e 

insignificativamente, os meus pais não me poderam comprar roupa nova... de rapaz.


Por assim dizer, parece um cenário mau. Acreditem, era bem maior e pior para um rapaz de 13 anos.


Ninguém era meu amigo, à excepção de uma pessoa que realmente 

foi aquele ombro amigo que muita gente gostava de ter e não tem. 

E por isso, estou-lhe eternamente grato.

Mais um aninho, e tudo mudou. Excepto, uma outra parte. 

Esta parte.

Consegui ter roupa de rapaz, usada e nova.
Consegui ter tenis que duravam mais tempo, mas só um par.
Mudei de ambiente, e isso melhorou bastante. As pessoas que me 

rodeiavam e me apontavam, tinham desaparecido, e eu tinha 

chegado novinho em folha, a uma nova escola.
Pronto para conseguir o respeito que gostaria de ter tido. 

Pronto para conseguir me isolar o suficiente para ninguém se 

meter comigo.

Foi tudo ao contrário.

Não me safei de uns grandes gozos, por andar sempre de preto.
Por andar acompanhado, por pessoas que ainda hoje admiro, porque 

por mais que os outros gozavam connosco, ninguém se virou contra 

ninguém, e passámos aquele ano juntos.
Era o rapaz de preto, com pensamentos suicidas, cheio de 

complexos. Outro com uma paixão enorme por uma rapariga que só o 

magoava. Admirei-o ainda mais, quando ele me disse: "Só quero 

estar ao pé dela, só isso me faz bem...e estou-me a cagar po 

namorado dela.", era um excelente companheiro para risadas.
Outro que parecia mais uma figura do estrelato de hollywood, do 

que outra coisa qualquer. Era humilde ao ponto de se abrir para 

comigo e dizer as suas condições, sem preconceito. Admirei-o por 

ser forte, no meio da atrocidade.
E por fim, o outro que era a nossa estrela para risadas sem fim. 

Viciado em jogos XBOX. Admirei-o por comer uma colher de 

manteiga sem pensar duas vezes, e achar aquilo normalissimo.
Fomos gozados, vexados, molhados, e quase a perder as 

estribeiras para pregar uns belos murros, bem repuxados atrás.
Ninguém desistiu de lutar contra a maré.
Admiro-os por isso.

No Secundário, já crescido e pêlos na cara, vim a conhecer o que 

era a vida de muita gente, que nunca tive antes.
Os meus pais compraram-me roupa nova, a estrear. Ténis de marca, 

daqueles que duravam, e foram 3 pares!
Finalmente, consegui comprar uma mochila de marca. Camisas, 

óculos de sol, pulseiras, relógios.
Aquilo que desejava antes, tive o prazer de ter algumas coisas 

nesta época.
Comecei a re-construir o que me tinha destruido ao longo da 

minha infância.

Auto-estima, ainda anda em construção. Prazer no que vejo, em 

termos de atitude, gostos, e mentalidade, Re-construídos!

No final, entrei no mundo do trabalho.
Compro as minhas roupas, pelo menos, as que gosto. Compro os 

meus sapatos e ténis que me fazem falta.
Os meus perfumes. Os meus óculos de sol. Os meus cintos.
A minha comida. Os meus filmes. O meu telemóvel.

Sofri? Sim, sem dúvida.
Há mais pessoas como eu? Sim, sem dúvida.
Aprendi algo com isto? Sem qualquer sombra de dúvida, porque 

toda agente devia passar por isto, 
para dar valor as coisas que mais tarde irão ter.

Sou um exemplo vivo de algo que muita gente teme.
Mas, para todos os que lerem isto e se identifiquem com este texto, 
eu quero vos dizer uma coisa:

"Por mais que a situação seja má, no momento; mais tarde, iremos ter a recompensa."

Mucho bueno,
Obrigado a lot por terem lido.

Sem comentários:

Enviar um comentário